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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O principezinho (versão da Loba)

Segunda, 16 de Abril às 15:35

Hoje quero deixar-vos uma versão minha, muito pessoal, da minha passagem preferida da história de " O Principezinho" de Saint-Exupèry.

(ver aqui o excerto original da passagem da raposa)

(ou a passagem da rosa...)


O Principezinho e a Loba
"Cativa-me..."





E foi então que apareceu a loba: 
- Bom dia! - disse a loba. 
- Bom dia! - respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada. 
- Eu estou aqui... -  disse a voz suave, debaixo da macieira... 
- Quem és tu? - perguntou o principezinho - Tu és bem bonita... 
- Sou uma loba... -  disse a loba. 
- Vem brincar comigo! - propôs o principezinho. Estou tão triste... 
- Eu não posso brincar contigo - disse a loba. Ainda não me cativaste. 
- Ah! Desculpa... - disse o principezinho. 
Após uma reflexão, acrescentou: 
- Que quer dizer "cativar"? 
- Vê-se logo que não és deste mundo... - disse a loba - Que procuras? 
- Procuro a paz - disse o principezinho - Procuro os sonhos... Esqueci-me de como se encontram... Que quer dizer "cativar"? 
- Os sonhos - disse a loba - são muito difíceis de se alcançar. Tão difíceis que desistimos deles... E com o passar do tempos esquecemos-nos da sua importância... Esquecemo-nos até da sua existência, bem como das coisas boas da vida e como ser feliz. É a felicidade que procuras? 
- Não... - disse o principezinho - Não seria pedir muito, mas já não sei como a procurar. Assm sendo procuro amigos. Se encontrar amigos será um bom caminho para ser feliz não achas? Que quer dizer "cativar"? 
- É uma coisa muito esquecida - disse a loba - Significa "criar laços..."
- Criar laços? 
- Exatamente - disse a loba - Tu não és para mim senão um jovem e belo príncipe inteiramente igual a mil outros príncipes. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo aos teus olhos de uma loba igual a mil outras lobas, ainda que bela. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... 
- Começo a compreender... - disse o principezinho - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou... há muito muito tempo atrás...
- É possível - disse a loba - Vê-se tanta coisa na Terra... 
- Oh! Não foi na Terra - disse o principezinho, foi lá em cima num planeta bem acima da Lua, ela levou-me às estrelas, e depois arremessou-me de lá dos céus -  disse tristemente o principezinho.
A loba pareceu intrigada: 
- Arremessou-te lá de cima? Como pode uma simples flor ter poder para tal?
- Não era uma simples flor, era a minha rosa. 
Ainda intrigada, pois não conceberia tal poder numa rosa, a loba escutou-o atentamente.
- Sempre houveram flores no meu planeta, flores simples e bonitas que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Mas um dia um grão novo foi trazido não sei de onde, e o que inicialmente me parecia um arbusto depressa cresceu e se transformou num enorme botão.  E eu assisti ao seu desabrochar. E ela revelou-se a mim em todo o seu explendor. E a sua beleza era tão frágil e tão comovente, que cedi de imediato ao seu apêlo aos meus cuidados.
- Isso parece-me lindo! - comentou a loba - E que aconteceu?
- Bem... A minha rosa não era nada modesta e era muito vaidosa, mórbidamente vaidosa... Eu percebi isso mas redobrava-me em atenções... Fazia tudo quanto ela me pedia, mesmo quando a apanhava em pequenas mentiras, ela reforçava a sua fragilidade e necessidade dos meus carinhos, infligindo-me remorsos por não cuidar dela como ela pedia... E quanto mais humilhada se sentia mais culpas me imputava.
A loba ouvia-o em silêncio, sem emitir um som.
- Assim - disse o principezinho - apesar da boa vontade do meu amor, acabei por começar a duvidar dela. Tomei a sério palavras sem importância, e tornei-me muito muito infeliz. Não a devia ter escutado. Não se devem escutar as flores. Basta olhá-las e aspirar o seu perfume. A minha embalsamava o meu planeta, mas eu não me contentava com isso. E em troca apenas recebi os seus espinhos, que ainda aqui estão cravados.  Não soube compreender coisa alguma, deveria tê-la julgado pelos seus actos, não pelas palavras. Devia ter-lhe adivinhado a ternura por debaixo dos seus pobres e desprezíveis ardis. Mas eu era jovem demais para saber amar... e entreguei o meu amor a quem o não soube cuidar.
Um silêncio instalou-se.
A loba reflectia.
O príncipezinho entregava-se à melancolia.
Até que a loba se pronunciou.
- Não lamentes o tempo que dedicaste à tua rosa. Foi esse tempo que lhe dedicaste que a tornou importante para ti. Esse tempo fez dela única no mundo. Única para ti, e nada mais importa. Porque se fizeste o que o teu coração mandou, só tens que te regojizar por isso, pois tiveste a coragem que poucos teriam. E a dedicação que lhe deste, os cuidados que lhe entregaste, fizeram dela especial, e fizeram de ti especial para ela, ainda que ela o não reconheça e não o tenha tão pouco valorizado. Esquece o mal que ela te terá tratado, e guarda só os momentos bons, retêm essa imagem, que fez de ti grande, e entende tudo o resto como algo que faz parte do teu crescimento... E verás que as marcas dos espinhos que ela deixou acabarão por desaparecer...
- Eu já estou a ultrapassar... Por isso aqui estou... Fechei o meu planeta mas não deixo de procurar os sonhos... Gostava de voltar a acreditar neles... E as marcas fundas que a minha rosa me deixou... Quem me dera acreditar um dia irão desaparecer... - comentou o principezinho enquanto olhava o horizonte.
- Tenho uma ideia. - disse a loba após uma reflexão.
- Então? - indagou o principezinho.
- Nada é perfeito - suspirou a loba. 
Mas a loba voltou à sua idéia. 
- Sabes? A minha vida é monótona e simultâneamente dura. Eu caço sonhos e os homens caçam-me a mim. Todos os sonhos se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu estou cansada. Cansada de perseguir sonhos que já não acredito. Cansada de ser perseguida e atingida desde que fui posta ao mundo. Cansada de pagar preços elevados por tudo isso. E quando penso que estou perto de ver a luz que tanto busco, os homens na forma da vida encarregam-se de me caçar, apanhar e torturar, trazendo-me à prisão da minha realidade. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Diferente dos outros passos que me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Passarei a amar coisas que nunca amei e ainda mais todas as que já amava, porque todas elas me farão lembrar de ti!, Então será maravilhoso quando me tiveres cativado.  
A loba calou-se e considerou por muito tempo o príncipe: 
- Por favor... cativa-me! disse ela. 
- Eu até gostava, mas não sei o que preciso fazer... - perguntou o principezinho. 
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto... 
- Só isso? - perguntou novamente o principezinho.
 - Claro que não! - disse a loba - Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos. Se conseguires ver-me com o coração, e olhares mais além, em troca eu descobrirei a chave do teu mundo fechado, e amarei a tua essência, e permitirei que me catives. E sabes? É preciso também que se criem rituais.
- Rituais? O que são rituais? - perguntou o principezinho,
- É uma coisa muito esquecida também - disse a loba. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. É o que faz com que eu me deite à noite, a pensar em ti, e feche os olhos desejando sonhar contigo. E meu primeiro pensamento do dia, de manhãsinha, mal abra os olhos, será só teu. Nessa altura saberei que me cativaste. E desde a hora que me levantar começarei a ser feliz. E quanto mais a hora de estar próxima de ti for chegando, mais eu me sentirei feliz. E estarei inquieta e agitada até à hora de poder estar contigo, e assim descobrirei o verdadeiro sabor da felicidade, sabendo que estarás lá por mim, e eu por ti e só por ti! E o meu coração estará preparado para a hora de te ter. E não importará a hora de te ver partir, porque possuiremos um ritual, e graças a esse ritual o meu amor por ti crescerá de dia para dia, e na tua ausência tudo me lembrará de ti, desde a gota do orvalho  numa flor, à brisa que corre pelos campos de trigo, e a saudade será apaziguada porque me cativaste e para sempre te pertencerei. E um dia que partas de vez, ficarei negra como à noite, e chorarei noites e noites a fio, e uivarei à lua onde tu estiveres, como prova dos meus sentimentos, mas dentro de mim continuarei a ser feliz, porque um dia me cativaste... E quando cativamos alguém, ficamos a pertencer-nos para sempre e passamos a ser responsáveis por essa pessoa, ainda que distantes e ausentes... 

Então no dia seguinte o principezinho voltou, e no outro, e no outro, e no outro...

E o principezinho cativou a loba...


sábado, 14 de janeiro de 2012

A loba e a presa

Domingo, 8 de Janeiro às 00:24




A loba baixou o focinho ao chão, aproximando-a da terra para sorver o cheiro do rasto daquela presa, que já vinha seguindo de tempos a tempos, sem contudo a tentar alcançar. 
Não havia presa como esta presa, esta era particular, e especial acima das especiais, e ela seguia-a faz tempo... 
Faz tempo que mantendo apenas a distância necessária para conseguir resistir ao ímpeto de se lançar no seu encalço, alimentava aquele jogo do gato e do rato, permitindo que a sua presença fosse notada e temida enquanto prolongaria por tempo indeterminado a sua sede de caça, de alimento... 
Sede esta não superior ao gozo que lhe dava materializar em sonhos acordados os contornos da sua presa, de imaginar o gosto do fluido do seu sangue quente que lhe roubaria das veias, enquanto obteria o privilégio de se deliciar com o manjar das suas tenras carnes... 
O seu odor, ela já conhecia bem, e até o seu relance... A atracção que estes lhe causavam era inegável e superior a ela própria... 
Entre a loba e a presa formara-se uma cumplicidade única, devida a esta proximidade gerada pelo reconhecimento mútuo, pela noção da existência de perigo no ar... 
Se por um lado a loba mantinha estas incursões solitárias e regulares ao coração da selva, procurando e actualizando a localização da sua presa, era esta quem mais se expunha, arriscando consecutivamente a pele de uma forma insana, ao afastar-se com descuido do rebanho, e ao denunciar-se como que a dizer estou aqui, para se deliciar com os rebentos mais tenros do coração da floresta. 
Naquele dia, a presa afastara-se mais do que o habitual, distanciando-se do rebanho e dos seus pastores e cães guia. 
A presença desta nas proximidades, tão intensa e anunciada, fazia tremer as narinas da loba, enquanto o seu interior se revirava e debatia numa luta... 
Contrariando o instinto da investida, a loba identificou e desenhou mentalmente o trajecto da sua presa, estacando e permitindo que ela viesse ao seu encontro. 
E o encontro da loba e da presa deu-se inevitavelmente. 
O cordeiro que habitara os seus sonhos materializava-se agora à sua frente, tremendo e vacilando das pernas, entregue ao seu alcance, mas curiosamente não surpreendido... 
Corajosamente a presa enfrentou a loba, sem emitir um único balido, retribuindo o olhar sedento mas sereno desta, com o mais meigo dos seus olhares, estabelecendo-se um diálogo em silêncio entre elas... 
- Minha loba? 
- Minha presa... 
- Porquê eu? Porquê eu e não outro cordeiro? 
- Porquê tu? 
- Sim, loba... Tens cordeiros mais gordos e mais viçosos no meu rebanho, que te poderiam prestar melhor sustento do que eu, os quais, com o teu porte e a tua força, não terias qualquer dificuldade em caçar! Então porquê eu? Eu, que sou tão pequeno, frágil e raquítico? A minha carne magra não te alimentará... 
- Enganas-te, cordeiro... Não é pela tua carne, ainda que tenra das mais tenras, que aqui estou, mas sim por essa mesma tua pureza, transparência e fragilidade quase proibitivas, pelo viço da tua lã virgem que cobre essa tua inocência, e que brilha aos meus olhos mais que qualquer outro... Porque habitas os meus sonhos, e constituis a mais doce das tentações que agora está ao meu alcance, e porque isso faz de ti a minha presa... 
- Não percebo o que vês em mim, loba, mas aceito... - assentiu o cordeiro. 
Sustentando o olhar da loba, e já sem medo, este dobrou-se sobre os joelhos, estendendo o seu tenro pescoço com toda a humildade e gentileza que conseguiu aplicar... 
Sob o poder de um feitiço maior, a loba deu dois passos seguros, investindo sobre o cordeiro e sem quaisquer movimento brusco, enterrando as suas presas na sua presa, penetrando e dilacerando suavemente a sua pele, a sua carne exterior, sentindo o gosto tão sonhado inflamar as suas papilas, e incendiar as suas entranhas, ao mesmo tempo que o ar era furado pela bala que a atingiu e a tombou... 
Uma dor fina e agonizante, rapidamente se transformou em dores lancinantes, de um calor forte e intenso seguido de um formigueiro que a invadiu e se expandiu por todo o seu corpo, contorcendo-a em espasmos incontroláveis, provocados pelo projéctil de chumbo que se alojara em seu interior... 
Tombadas ao lado uma da outra, suas respirações eram aceleradas, e seus corações batiam descompassadamente, latejando num movimento visível à superfície, e seus olhares presos se mantinham... 
- Vai!... - implorava a presa à sua loba que resistisse e fugisse... 
- Irei!... - proferiu esta, reunindo as poucas forças que lhe restavam para se erguer, não sem antes lançar um último olhar na sua presa que jamais voltaria a ter, e que um véu de tristeza profunda cobriu e desceu aos olhos que lhe pediam perdão, para desaparecer logo de seguida no meio da vegetação... 


Não eram mortais seus ferimentos, nem de uma nem de outra, e logo o cordeiro foi tomado e levado em braços por seu dono e pastor, enquanto a loba recuperava lentamente as forças e espalhava o formigueiro evaporando-se num ápice e sem deixar rastos. Mas dentro de si levava o veneno do chumbo que a invadira e nela ficara alojado, que se iria alastrar lentamente para causar os efeitos mais devastadores. 
Um peso alojado nas suas costas e não provocado pela bala teria sido o responsável pela lentidão do ataque, tornando-a susceptível ao perigo, impedindo-a de concretizar até às últimas consequências a sua investida, e que por outro lado lhe atrasava agora a sua fuga... 
Consciente dele e da sua fraqueza, a loba teria antevisto este desfecho, e ainda assim... entregara-se ao seu destino a qualquer preço. 
Mas também esta loba era especial entre as especiais e não era uma loba vulgar! 
Guerreira entre as guerreiras, conseguiu arrastar-se e pôr-se a salvo para fora da floresta, regressando à civilização, regressando à sua companheira de sempre, à sua amiga e mulher, a estalajadeira... 
À distância, a loba reconheceu o cheiro e a silhueta afável da estalajadeira sentada na soleira da porta de entrada da pousada. 
Cambaleando aproximou-se e deixou-se cair a seu lado, aguardando o conforto das suas festas no pêlo. 
À soleira da porta, um pouco mais elevadas, as duas observavam o movimento na rua mais abaixo, perpetuado pela passagem constante de veículos a pequena ou a velocidade superior, e pelos passos acelerados de diversos transeuntes que se cruzavam no passeio sem se verem ou sequer repararem nelas, concentrados nos seus afazeres e preocupações. 
- Pensei que não voltavas… - disse em voz baixa a estalajadeira, afagando com festas suaves e lentas o lombo da loba. 
- Pensei que não voltasse… - respondeu a loba no seu silêncio. 
- Estás ferida! - constatou a mulher após um curto e breve olhar de relance. 
- Vai passar. - disse, estremecendo com o veneno do chumbo que minava o seu interior e dava sinal de si. 
- Não devias ter voltado… - tornou a estalajadeira. 
- Não partiria sem ti! – retorquiu a Loba. 
- A tua missão está cumprida, loba… Um dia vais ter que o fazer, e tu sabes que já não posso mais te acompanhar… 
Levantou os olhos para a sua companheira, observando a cabeça hedionda da figura negra, demoníaca e alada, que habitava nas suas costas, e espreitava um pouco acima do seu ombro exercendo um sorriso trocista e escorrendo baba viscosa pelos cantos da boca e pela língua bífida e pendente, de garras longas e afiadas, presas ao seu pescoço e ao seu tronco, envolto nas asas de morcego. 
- Está cada vez maior… Não podes fazer nada? – indagou a loba. 
A mulher sorriu tristemente. 
- Já me acompanha desde a barriga da minha mãe. E cresceu de tal forma que já não me consigo libertar dele... E tu se não te libertares vais ficar como eu… Deves partir o quanto antes… 
A loba sabia bem o que a esperava. Por muito familiarizada que com ele estivesse, o peso que curvava e dobrava a amiga estalajadeira causava-lhe nojo e repugnância!… O mesmo peso que ela própria começava a sentir, também a sua criatura demoníaca começava a tomar forma e a despontar das suas costas. Sorte dela, que esta também seria envenenada pelo chumbo da bala que atingira a loba e que a iria consumir… 
Algum dia recuperaria disso? 
Cansada, a loba recolheu-se ao seu ninho no interior da estalagem. 
A mulher seguiu-a, iniciando o retorno à sua rotina diária. 
- E afinal… que tinha essa presa, Loba? 
Como a loba nada respondeu voltou a insistir… 
- Que tinha essa presa que a distingue de todas as outras, Loba? 
Deitada no ninho e enroscada em torno de si, a loba ergueu o focinho para responder. 
- A minha presa… A minha presa só tinha o anjo mais belo que já vi em toda a minha vida, às costas… 
Escondeu o focinho entre patas, e adormeceu… 




por Loba Cris 

mais textos da linha da loba e da estalajadeira: 










sábado, 10 de dezembro de 2011

Retrato de um beijo

Sábado, 10 Dezembro 2011 às 01:27






Cedendo ao desafio de contar o primeiro beijo eis que me deparo com uma tarefa mais difícil do que imaginava, pois se a uns, falha a memória, a mim cabe-me a dificuldade em decidir por qual dos beijos aqui descrever, uma vez que beijos há que se vivem e sentem como se do primeiro se tratassem. 
E que bem sabe o primeiro beijo... 
Assim sendo, acabei por remexer no baú das memórias e fui buscar o primeiro, o mais precoce, o mais remoto de todos, e com registo a assinalar, ainda que embaraçoso. 
Digo digno de registo como o primeiro, se considerarmos que brincar aos médicos com os primos não conta, ou será que conta? 

Tinha eu então 6 anos, e encontrava-me na minha primeira classe da escola primária. 

Naquele ano, Joca era o miúdo mais popular da sala de aulas, e porque não dizê-lo, de todo o 1º ano. 
Era o mais forte, o mais bonito e também o mais carismático, seguido pelos rapazes para todo o lado, sempre com brincadeiras que divertiam toda a canalhada, e todas as meninas suspiravam por ele. 
Todas, incluindo eu, naturalmente. 

Um belo dia caí na asneira de confessar às minhas amigas a minha secreta paixão. 
Estávamos no recreio, e terei feito a minha revelação no meio de uma conversa, em que o tema era o Joca, e em jeito de cumplicidade. 
- A sério? - perguntaram-me elas - Gostas mesmo, mesmo, mesmo do Joca? Juras? 
- Sim, juro. Gosto dele por amor. 
Nessa altura as minhas amigas ter-se-ão olhado nos olhos umas das outras e desatado à gargalhada. 
O que consegui, em vez do apoio esperado, foi uma vaia de todo o tamanho. 
De um momento para o outro vejo-me cercada por todas as meninas e mais alguns curiosos que se juntaram à cena, formando uma roda em minha volta, girando ao som da cantiga: 
- A Tininha gosta do Joca, na, na, na-na, na... A Tininha gosta do Joca, na, na, na-na, na... 
Recordo-me de tentar fugir, tapando a cara com as mãos, sendo perseguida pela miudagem toda que se foi juntando, tendo sido apanhada e cercada nas traseiras da escola. 
Ali fiquei, envergonhada e de cara fixa no chão, com as mãos atrás das costas, encostada a uma parede de um pavilhão pré-fabricado, enquanto o resto dos miúdos me vaiavam, perante a cara de diversão das minhas amigas, que observavam a cena de um canto, ligeiramente afastadas. 
Nisto aproximou-se o grupo do Joca, liderado por ele, que perguntava "- O que é que se passa aqui?" com ar reprovador de quem ninguém lhe conta nada... 
Rindo-se muito as meninas cercaram-no e uma das minhas amigas terá chegado ao pé dele, juntando as mãos ao ouvido para lhe contar um segredo, que já não era segredo algum. 
Fiquei para morrer, com as faces da cor da saia encarnada que despontava por debaixo da minha bata de um branco imaculado, com o meu nome bordado sobre um pequeno bolso superior, flamejando em chamas, parecendo que iam soltar labaredas. 
Estarrecida e muda, ali fiquei enquanto ele se aproximou, cara a cara, com o sobrolho franzido e um ar muito zangado, e os punhos cerrados à cintura, quase parecendo que ia começar a bater o pé ritmadamente no chão. 
- Então e tu não dizes nada ao teu futuro marido? - interrogou-me ele com um ar muito sério. 
Senti que o chão me fugia, e já não sabia onde me meter com tanta vergonha, enquanto à nossa volta a miudagem se ria às bandeiras despegadas. 
- Não se riam! - dizia ele - Esta aqui é a minha futura mulher! Vamos casar e ter muitos meninos! 
Foi a paródia total. Palavra que ele dissesse e a canalhada desfazia-se toda... Já havia quem chorasse de tanto rir... 
E eu só queria um buraquinho para desaparecer... 
Até que no meio da confusão, Joca estacou de repente enquanto coçava a cabeça. 
- Esperem lá! Ó mulher? Mas eu, para casar contigo... tenho que te dar um beijo, ou não tenho? Senão não há casamento!... 
Palavra mágica que foi dita! Calou-se tudo! 
De boca aberta e olhos bem abertos, tal como eu, ficaram suspensos enquanto Joca se chegou novamente a mim, desta feita com um dedo levantado que quase encostou ao meu nariz, gesticulando enquanto com um ar muito decidido me intimou: 
- Mas tens que fechar os olhos! Não podes ver! Senão não te dou o beijo!... 
Sem acreditar no que me estava a acontecer, e perante o espanto das minhas amigas e do resto da miudagem, abanei repetidamente a cabeça num jeito de concordância, e fechei os olhos com muita, muita força. 
Senti que ele se chegou para trás, talvez para ganhar lanço. 
- Vai ser agora! Não abras os olhos! - ordenava ele - Vou contar até três! Está quieta! Um... dois... três!!! 
O que se seguiu foi algo completamente desastroso, iniciado por alguém que se lançou tipo super-homem a levantar voo, ensaiando passos de corrida para no fim do lanço me despegar algo que ainda hoje estou para perceber como é que não acabou em dentes partidos ou cabeças rachadas, ou quando muito caras pisadas... 
Mas foi um beijo, o que recebi, um beijo tipo... bate-chapas, que não me recordo se envolveu baba e ranho, sei que língua não teve, até porque isso seria impensável naquelas idades. Ainda que quase trágico, foi o meu primeiro beijo, com o meu primeiro "amor", e que ali, naquele momento, me transportou para muitos metros, e porque não, quilómetros acima do chão, suspensa num instante em que tudo em volta desapareceu ou deixou de ter importância. 
Se uns riam e batiam palmas, e outros gritavam "- Que nooooojo!!!", outros como as minhas amigas permaneciam com o queixo caído sem meios de o segurar, enquanto cochichavam baixinho entre eles. 
A partir desse momento as atenções voltaram-se todas para o Joca, que havia se tornado numa espécie de herói. 
Rodeado pelos outros miúdos, afastou-se, e aos poucos todos dispersaram. 
E eu ali fiquei e permaneci quase imóvel durante o resto do recreio, encostada à parede pré-fabricada, torcendo a bata entre os dedos quase a rasgando, e teimando em não levantar os olhos do chão, enquanto com a ponta dos pés fazia desenhos no chão de areia batida. 
Volta e meia o grupinho do Joca acercava-se de mim, fartando-se de rirem com as saídas dele. 
- Estão a ver? Aquela é a minha mulher! Casámos hoje! 
Ou então... 
- Então mulher?! Já fizeste o comer? - (precoce o menino, não? ) 
Ali esperei que tocasse para dentro e ali me mantive enquanto não entravam todos, o que não evitou a risota geral quando depois entrei eu na sala... 
Não houve mais beijos, pelo menos não com o meu Joca!... Ainda assim fiquei esse ano conhecida como a namorada dele, e a minha paixão ainda se manteve viva por tempo indeterminado, mas lá acabou por passar. 

Já as minhas amigas, deixaram de me falar durante uns tempos... 
Mas, e aliás como tudo na vida, também isso passou... 




Assim foi o meu primeiro beijo... 

por Loba Cris

Des(a)tinadas - parte I

Segunda, 5 Dezembro 2011 às 01:57

Cris e Marta eram amigas do peito desde os tempos da adolescência. 

No início cruzavam-se pontualmente durante as aulas, ou quando regressavam a pé da escola ao final da tarde, seguindo contudo por passeios diferentes, e trocando apenas olhares e sinais de reconhecimento, sem nunca terem entabulado qualquer tipo de conversa. 
Um dia descobriram casualmente que moravam à distância uma da outra de apenas dois quarteirões, e desde então nunca mais se separaram. 
Nesses tempos Marta tinha o hábito de se levantar bem cedinho todos os domingos, saindo de casa para escapar um pouco ao seu ambiente duro e pesado, protagonizado pela mão tirana de um pai violento, endurecido pelo peso da viuvez e de ter de criar e educar oito filhos sozinho. 
Marta escapulia-se, indo bater à porta de casa da Cris, para se enfiarem as duas na cama, onde ficavam a dormir abraçadas e enroscadinhas até sensivelmente meio da manhã. Sob o aconchego dos lençóis e o calor proporcionado por esta proximidade, transmitiam energias positivas uma à outra, sentindo-se donas de um mundo suspenso, capazes de enfrentar qualquer desafio que as esperasse lá fora. 
Depois levantavam-se para tomarem um pequeno-almoço com os pastéis deliciosos que Marta trazia sempre da pastelaria que ficava no caminho. 
Já em pleno Verão o calor não convidava a ficarem na cama. Nessa altura calçavam sapatilhas, vestiam uns fatos de treino e saiam cedo de casa para irem correr para a Quinta da Conceição, um refúgio mágico arborizado à margem do rio Leça, com vista para o Porto Leixões. 
A Quinta da Conceição fora um espaço que outrora albergara as instalações do Convento de Nossa Senhora da Conceição, hoje convertido em parque municipal. Espaço esse que mais parecia um místico labirinto, repleto de trilhos que serpenteavam por entre as árvores, e os jardins repletos de lagos e chafarizes, ornamentados por portais de estilo manuelino, passando pela capela de São Francisco e pelo antigo claustro do convento, não esquecendo dos espaços de lazer como os campos de ténis e de minigolfe e até mesmo a piscina municipal. 
Era portanto o espaço eleito para irem correr ao domingo, para ficarem em forma diziam elas…Escusado será dizer que na volta, no regresso a casa, a paragem obrigatória era na pastelaria, aquela que ficava no caminho, para aí se empanturrarem com deliciosos pastéis. 



Os anos passaram-se, mas Cris e Marta não davam um passo, uma sem a outra, nem mesmo quando se casaram, constituíram famílias, ou seguiram suas vidas. Continuaram sempre muito próximas, até mesmo morando a dois quarteirões uma da outra. 
Todavia a pastelaria tinha sido substituída por uma cafetaria, gerida agora por Cris e seu companheiro. 
E as manhãs de domingo foram substituídas pelos fins de tarde das sextas, passados agora na cafetaria de Cris: O Nosso Cantinho. 
Fascinada por filmes americanos, Cris tentou reproduzir um pouco da sua atmosfera na decoração da cafetaria. Para tal Cris teria adquirido uma "Jukebox" através do Amazon, uma vez que não são comercializadas em Portugal, juntamente com um catálogo de músicas dos anos 70 e anos 80, bastante diversificado com temas que iam desde os clássicos “slows” ao pop-rock, heavy metal, enfim uma vasta colectânea de músicas que ninguém esquece e que tanto agradava a clientela mais assídua. 
As duas extravasavam todos os finais de semana, tagarelando sobre o dia-a-dia, partilhando coscuvilhices, rindo das suas pequenas desgraças, e eventualmente dançando ao som da música escolhida para o momento, danças essas que, escusado será dizer, constituíam a delícia dos clientes masculinos, dada a sensualidade e o envolvimento que lhes aplicavam. 


Mas ultimamente Marta já não aparecia tanto, ligava sempre com uma desculpa de última hora, justificando-se com uma constipação do Diogo, o bebé de Marta com 15 meses. 
Cris preocupava-se com ela. 
No fundo sabia, que os ciúmes doentios de Daniel, o marido de Marta, e a sua vigilância obsessiva, estariam por detrás das ausências dela. 
Mas Marta fechava-se cada vez mais. 
Lentamente foi alterando os seus hábitos diários, principalmente desde que o pequeno Diogo nasceu, dividindo-se entre o trabalho de mãe e esposa, e o seu emprego como escriturária que com significativa dificuldade ia mantendo, devido aos acessos ciumentos de Daniel. 
Isolando-se cada vez mais, Marta esquivava-se sempre, ou respondia de forma evasiva sempre que questionada por Cris sobre Daniel. 
Cris conhecia bem esses acessos. Já tinha assistido a algumas discussões entre os dois. 
Daniel não era só possessivo. Ele dominava Marta, e sufocava-a, e controlava-lhe cada passo, criando-lhe sentimentos de culpa até pela companhia da própria sombra. Motorista de transportes internacionais, Marta só respirava quando ele estava em viagem, algo que já não ocorria há algum tempo, uma vez que Daniel tinha sido recentemente suspenso por ter apanhado uma multa por condução com excesso de álcool, em pleno serviço. 
Cris desconhecia que naquele dia Marta tinha tido uma conversa com o seu patrão, após mais uma das cenas de Daniel que teria invadido o escritório para o descompor com acusações de assédio da sua mulher, anuindo que para bem de todos seria melhor ela deixar o emprego. 
Marta regressou a casa lavada em lágrimas. 
O desespero e o desalento que sentia, sem saber o que seria da vida deles daí para a frente, conseguiam ser superiores ao medo do que a esperaria em casa. Ainda deambulou um pouco pelas ruas, respirando fundo e ganhando coragem para enfrentar Daniel. 
Entrou em casa e foi encontra-lo na sala de estar, andando nervosamente de um lado para o outro, na televisão passava o Porto-Benfica em directo, mas não seria o futebol a causa maior de tanto nervosismo. 
Aproximou-se para lhe dar um beijo e ia perguntar “- Porquê que me fizeste isto?” mas calou-se e exclamou apenas um “-Tresandas a álcool!”. A resposta que obteve terá envolvido termos como “vaca” e “reles prostituta”. Preocupada com o bem-estar de Diogo, ter-se-á encaminhado para o quarto do filho, seguida por Daniel. 
Marta entreolhou-se quando ouviu bater a porta do quarto atrás de si… 

(…) 

Em casa, sentada à mesa, de caneta e calculadora à mão, completamente atolada e rodeada por papéis como extractos bancários e facturas de contas para pagar, Cris não parava de esfregar a cabeça. 
Na mão segurava a carta, lida e mais do que relida, com a ordem de tribunal para execução da penhora referente ao seu estabelecimento. Amanhã mesmo, pelas 8h00, Cris receberá a visita de um oficial de justiça nomeado executor da penhora, acompanhado por um avaliador, e todos os bens como equipamentos e mobiliário, incluindo a sua “jukebox”, irão ser apreendidos e retirados da sua cafetaria, obrigando ao encerramento das portas do Nosso Cantinho. 
Por mais que puxasse pela cabeça, Cris não conseguia entender como é que de um momento para o outro viu as suas contas congeladas, incluindo as suas contas pessoais e as comuns com o seu companheiro, até porque o negócio corria razoavelmente bem, o movimento da cafetaria encontrava-se precisamente no seu apogeu, e até a inspecção da ASAE decorrida esse ano lhes tinha sido favorável. 
Cris desde sempre confiara a gestão financeira da cafetaria a Berto, o seu companheiro. Professor de matemática, contas era com ele assim como a gestão do pessoal, enquanto com ela ficava a logística e toda a restante organização e atendimento ao público. Como funcionário público, em conjunto sempre tiveram relativa facilidade na obtenção de empréstimos, apesar de o nome dele não constar na sociedade por opção pessoal. 
Quando Cris foi apanhada de surpresa com o endividamento, confrontara Berto, mas em vez de respostas teria obtido acusações, relativas à despreocupação e desinteresse dela e ao não envolvimento dela nas contas da cafetaria. 
Mas naquele momento não era a ordem do tribunal que a deixara atónita e sem reacção, com a sensação de o chão lhe fugir e das paredes da sala não só girarem em sua volta, mas também se aproximarem, fechando em círculo até lhe faltar o ar. 
Enquanto Berto tomava um banho de chuveiro, Cris tinha estado a utilizar o portátil pessoal do companheiro, para consultar toda a contabilidade de empresa, relações de bens e extractos bancários, etc. O que ela não contava foi ter apanhado acidentalmente uma página de um banco online, cuja sessão não teria sido terminada, permitindo-lhe o acesso a uma conta bancária que desconhecia por completo. Nem tão pouco com o assombroso número que constituía o saldo da mesma, de tal ordem gigantesco que bastaria uma parte mínima para pagar as suas dívidas e ainda lhe sobrar um fôlego. 
Em estado de choque e completamente em transe, Cris concentrou-se em prestar atenção ao barulho da água a correr no chuveiro enquanto escrutinava o movimento daquela conta, descobrindo que todos os montantes depositados foram efectuados em dinheiro. 
Por outro lado encontrou o registo de transferências regulares de valores significativos para outra conta, conta essa em nome de, imagine-se, da empregada que Cris havia despedido há um ano atrás, depois de a ter apanhado com Berto em pleno envolvimento sexual, e uma vez que era dele que Cris precisava e não o podia despedir a ele… 
Aliás, estas “escapadinhas” de Berto já eram habituais, e se numa fase inicial a magoaram e revoltaram, com o tempo tornaram-na fria e indiferente, uma vez que precisava dele e ele até servia bem o propósito que lhe era destinado, o de lhe saciar o corpo quando pretendia e ainda a apoiar e dar o conforto e segurança que precisava, pelo menos até conseguir alcançar a almejada independência financeira tão sonhada. 
Num acto irreflectido, seleccionou a opção de introduzir uma nova transferência, e na conta do destinatário preencheu o número da conta da sua falecida mãe, que por sinal ainda se mantinha aberta e da qual era titular, e também a sua única conta não congelada. 
De olhos fechados e sem conseguir parar de tremer, Cris rezava para que o telemóvel para onde seria enviado o código de validação da transferência, fosse o que estava também pousado na mesa, junto com os restantes objectos pessoais de Berto, quando o sinal de mensagem se fez ouvir. 
Nisto a campainha tocou, fazendo-a saltar quando ainda tentava perceber se Berto teria ou não ouvido o sinal anterior. 

Cris abriu a porta, e de olhos esbugalhados levou a mão à boca e mal teve tempo de conter o grito que emitiu ao deparar com a figura e o estado de Marta… do outro lado da soleira da porta… 





por Loba Cris 

... e a continuação fica entregue a http://pt.netlog.com/smeagola, a parceira desta ideia que aqui pretendemos que ainda vá dar muito pano para mangas... eheheh 

Espero que gostem

A marca da loba


Sexta, 2 Dezembro 2011 às 11:07





Também a loba fecha os olhos, momentaneamente, enquanto eleva o focinho para melhor farejar o ar... 
Ela já deu pela tua presença... 
O teu cheiro que ela já memorizou penetra-lhe nas narinas e enlouquece-a... 

Debate-se com uma luta interior... 

Por um lado os uivos que se sentem ao longe chamam-na à razão, ela deverá retomar o seu caminho para junto dos seus... 
Por outro... a presença desta presa desconhecida tende a arrasta-la para o perigo... 
Ela sabe que esta presa não é uma presa qualquer... os seus instintos impelem-na para ir ao seu encontro... 

Também ela não é uma loba qualquer... dizem que é meia-loba, meia-mulher... um dos lados atraiçoa o outro, impedindo-a de assumir na totalidade qualquer um deles... 

A passos hesitantes arrebita as orelhas, afinando a audição... 
Ela sabe dos caçadores que estão no seu alcance... 
Conhece todos os seus truques e todas as armadilhas, as cicatrizes que oculta debaixo do pêlo estão lá para a lembrar bem disso... 
Sabe bem das presas que lhe são lançadas como isco... 

De olhos bem abertos ela receia qualquer refolhar de arbustos... ela pressente o caçador de cano pronto a disparar e a obter o seu troféu ambicionado... 

Mas ai esta presa tanto a atrai e lhe contraria o bom senso... que tanto lhe remexe as entranhas e a impulsiona a saciar o seu vício, deixando a sua marca... 

...a marca da loba...

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A máscara


Quarta, 5 Outubro 2011 às 23:04

Este excerto aqui publicado corresponde à minha participação numa desgarrada, uma história escrita a várias mãos. Aos interessados em conhecer as restantes participações, poderão solicitar-me que eu facultarei links com a devida autorização das autoras... :)
 

Parámos em frente ao Les Jardins Du Marais Hotel, o local que lhe tinha sussurrado ao ouvido quando manifestei o meu desejo de jantar no quarto.
Dirigimo-nos para a entrada quando um apito insistente de uma buzina me chamou à terra.
O som estridente provinha da motoreta que parava mesmo atrás de nós, da qual, nada mais nada menos que Cris nos acenava agitadamente com uma mão, enquanto com a outra retirava o capacete para libertar a sua longa cabeleira loura.
Alegremente e de braços estendidos, alcançou-nos a passos rápidos para me envolver num abraço apertado.
Cris recuou um pouco a cabeça, para me fixar os olhos, e sem me dar tempo de articular qualquer palavra, presenteou-me com um profundo e intenso beijo na boca, enquanto com a ponta dos dedos da mão livre do capacete, segurava uma madeixa do meu cabelo, entrelaçando-os e brincando, num gesto singelo que dela tão bem conheço. Beijo que retribuo instintivamente, permitindo que as nossas línguas se envolvam, esquecendo-me por momentos de onde estava.

- Bem!!!... Não te posso deixar 5 minutos sozinha em Paris que tu não perdes tempo e tratas logo de arranjar companhia… - exclamou Cris fixando alegremente o meu Don Juan especado sem conseguir fechar a boca entreaberta pelo espanto, mas voltando logo de seguida um olhar indagador e simultaneamente repreensivo na minha direcção.
Ainda atordoada fiz um esforço por me recompor.
- Desculpa… Cris? Apresento-te … herrrhh… Juan Belmonte, um amigo. Juan, esta é a Cris, a minha amiga do telefonema de há pouco… já não nos víamos há algum tempo…
- Hummm!... Amigo, hein? E nem me avisaste que ias trazer companhia para o jantar?
- Não, Cris… Nada disso, apenas… apenas surgiu um imprevisto…e… o Juan ofereceu-se para me mostrar as vistas nos arredores enquanto me acompanhasse ao hotel… Juan! Gostaria de se juntar a nós? Estávamos a pensar experimentar o requinte do Ópera Bastille… - respondi atabalhoadamente e sem grande convicção. Ambas, voltamos olhares expectantes na direcção do meu Don Juan.
- Pois… Lamento imenso, minha querida, mas deverá ficar para outra altura. Suponho que vocês terão muita conversa para pôr em dia, seria indelicado da minha parte impor a minha presença…
- Disparate! Claro que não nos vamos importar que nos acompanhe numa refeição! Pois não, Cris?
Cris limitava-se a sorrir, percorrendo Juan de alto abaixo num olhar de quem prestava avaliação.
- Cris??
Fixei-a insistentemente e nada.
- Agradeço o convite, mas permita-me que o decline. - retorquiu para minha decepção - Apenas pretendi retribuir o favor pessoal que me prestou à pouco, julgando erradamente que a estaria a salvar de um compromisso igualmente chato… Não irei tomar mais o seu tempo…

Ainda contrariada, abri a carteira para retirar uma caneta, dei dois passos na sua direcção para lhe pegar num dos braços pela mão. Puxei o punho da camisa de linho ligeiramente para cima e voltando o braço escrevi duas palavras: suite 223.
Despedi-me com um beijo perto do ouvido onde sussurrei:
- Foi um prazer!... Espero voltar a vê-lo…
- O prazer foi todo meu, Judite…
E afastou-se rapidamente ignorando completamente Cris.

De novo sentada, pedimos de jantar enquanto tagarelávamos com entusiasmo. Fazia uns dois anos que não nos víamos…
Envolvidas por uma decoração requintada, com mobiliário assinado por Philippe Stark, e compridas banquetas de veludo em vermelho bordeaux, o toque final era dado pela iluminação num ambiente velado proporcionado pelos lustres Big Diamond de Renée Vendrig.
- Hummm! Parece-me que alguém ficou com os planos para hoje à noite estragados…
Sorri enquanto abanei a cabeça.
- Que nada, Cris! Já sabes como eu sou, deixo-me levar pelos sentidos e esta cidade tem um efeito devassador sobre mim… Se sinto um ímpeto arrebatador deixo-me levar e vou atrás dele… Mas acabaste por me fazer favor, até porque os únicos planos que me posso permitir para hoje à noite são os de me deitar cedinho para amanhã levantar-me com a cabeça bem fresca para a conferência.
Cris deu uma gargalhada.
- Ah ah ah ah! Conheço bem, esses teus ímpetos!... – piscou-me o olho - Mas tu, Ju!... Não mudaste mesmo nadinha!... e não me refiro só a esse corpinho de sereia…
Provocadora, Cris devorava-me literalmente, percorrendo o meu corpo com seus olhos de gulosa, dançando entre o meu decote profundo e os meus lábios quentes, que pareciam tomar conta dela.
- Vá, Ju. Não fiques com essa carinha de desanimada. Liga-lhe e propõe-lhe que venha ter contigo para a sobremesa. Eu ia convidar-te para uma festinha tardia lá em casa, só para mulheres, Charlotte e Sophie vão lá estar e estão ansiosas por te conhecer. - Cris piscou-me novamente o olho.
- Ai Cris, tu e as tuas festas… Adorava mas não posso. Preciso ainda de rever uns apontamentos para a palestra que vou dar. E nem que quisesse poderia ligar-lhe pois não fiquei com o número dele…
- Mau! Não tens o número dele? Nem nenhum contacto? De onde desencantaste tu este personagem, Judite Maria?
Perante a minha hesitação, Cris repreendeu-me suavemente…
- Deverias tomar mais cuidado, Ju… O Professor Dr. João Campos vai estar presente na Cimeira onde tu também vais participar. Correm rumores de que ele fez uma grande descoberta que irá abalar a economia das actuais grandes potências. Se isso tiver fundamento, ele estará a ser considerado um alvo a abater. E tu como ex-mulher dele também poderás estar sob perigo.

Pedimos o pato com mel e limão, acompanhado por batatas a murro, cogumelos e espargos salteados. Na companhia de um Chardonnay de 2003, deliciamo-nos com os prazeres da degustação, enquanto os meus pensamentos voavam por outros prazeres, paralelamente à nossa tête-à-tête.
As festas da Cris… este pensamento faz-me retornar aos nossos tempos de faculdade, as paredes daquele apartamento que partilhámos.
Estremeço, enquanto um formigueiro me sobe pelas pernas e faz com que me contorça levemente, e me humedeça, só por recordar… Concentro-me no movimento dos lábios deliciosos da Cris e deixo-me transportar…
Com a Cris enveredei pelos caminhos da sexualidade explorada no feminino, conheci a paixão e o amor clandestino, o amor entre mulheres.
Com a Cris aprendi que os homens fazem amor com o corpo, mas as mulheres fazem amor com a alma, jamais se igualam.
A pele de uma mulher é sedosa, macia, pede para ser tocada, cheirada, acariciada, explorada…
Saborear o beijo de uma mulher quente, sedutora e sexualmente activa faz-nos esquecer quaisquer receios.
Sentimo-nos de igual para igual sem nos preocuparmos com o que ela possa pensar de nós, se agradamos fisicamente, se o nosso desempenho estará à altura, porque é algo que se sente de dentro…
O vibrar do corpo dessa mulher faz-nos também vibrar e desejar prolongar essa vibração.
Mais do que nos entregar o seu corpo ela entrega-nos a sua sedução.
Uma mulher louca pelo desejo faz-nos desejar que o tempo pare e que possamos sentir-nos vivas, com desejo, excitação, loucura, muita loucura, enquanto buscamos aquilo que mais ansiamos, o prazer.
Ter uma mulher a meu lado que me envolva com o seu beijo, que me toque com desejo, que me provoque com o seu olhar e me proporcione momentos intensos de prazer, que se entregue a mim por completo, sem receios, com desejos como os meus, é o alcance do prazer sublime.
Foram tempos de loucura, de festas privadas, festas só para mulheres, que eventualmente terminavam em longas orgias pela noite dentro, de corpos enrolados, suados e humedecidos, em longas trocas de beijos e carícias, onde tudo valia… Por vezes também convidávamos rapazes, mas aí eles funcionavam como acessórios para os nossos jogos de prazer.

De regresso às nossas terras natais tudo mudou.
Por um lado a distância física que nos apartou, por outro lado o ter que enfrentar a família, a Cris era forte e determinada, assumindo as suas opções em pleno, contra tudo e contra todos, já eu… sou impulsiva, sou apaixonada, sou louca, mas estou longe de ser corajosa como ela.
Além de que não consigo passar sem a energia e o calor de um bom corpo masculino, que me faça tremer o chão, duma voz masculina que soe como música nos meus ouvidos, do conforto de um abraço forte, da segurança de umas mãos másculas, do desejo espelhado no olhar de um homem, mas acima de tudo do vigor de um membro que me faça vibrar e explodir de prazer e volúpia, e me renda à minha fraqueza, e reclame a minha entrega incondicional.


Assim, seguimos caminhos diferentes. Eu dediquei-me à minha carreira na área da investigação. Passei por um casamento de curta duração tal como todas as outras relações que fui tendo ao longo da vida. Salto de paixão em paixão, tenho dificuldade em fixar-me quer emocionalmente quer geograficamente, e muito embora seja acometida de desejos de parar, de fugir, de encontrar o amor da minha vida, a única relação duradoura que consegui ter é mesmo a que mantenho com o trabalho.
Já a Cris, igualmente dedicada à carreira, empresária de sucesso, proprietária de uma empresa de outsourcing com escritórios implantados nas principais cidades da Europa, é especialista em gerir o seu tempo, entre o trabalho e a vida pessoal.
Junta com a companheira Daniela, assumiu um novo papel para si, o de mãe. De comum acordo, com um amigo comum, Cris foi inseminada artificialmente dando à luz a filha, a Maria.
Mais tarde o pai biológico reclamou os direitos de paternidade e a custódia exclusiva da criança, processo que perdeu em tribunal, tendo sido provada a validade da declaração prévia que teria assinado, abdicando desses mesmos direitos.
Um dia, Maria desapareceu do infantário. Na mesma altura o pai biológico terá partido numa viagem de negócios com destino para parte incerta. A polícia foi posta no encalço dos dois, mas não mais foram encontrados.
Não conheço ninguém com a coragem da Cris, que nunca cedeu ou perdeu a esperança de voltar a encontrar Maria, gastando fortunas em detectives privados ao longo destes anos, nem mesmo quando a Daniela não suportou mais o sofrimento e deixou a relação, vindo mais tarde a casar-se com um homem.

Foi neste momento que vi uma sombra descer sobre os olhos de Cris ao verificar que tinha uma chamada no telemóvel que não terá atendido, levantando-se para se afastar do burburinho do restaurante para devolver a chamada.
Quando regressou, estava branca e ansiosa. Tinha acabado de receber uma chamada do mais recente detective contratado, o qual teria informações novas e urgentes para lhe dar.
Sem mais delongas, pegou nos objectos pessoais e precipitou-se porta fora, sem ver mais nada à frente, indo ao encontro com o agente.

De regresso ao quarto do hotel assustei-me com o forte dispositivo policial que vigiava a recepção e os corredores.
Apercebi-me que ninguém entraria ou sairia do hotel sem ser rigorosamente revistado. Eu própria fui abordada e tive que apresentar a minha identificação. Até a minha bagagem foi verificada antes de ser levada para o quarto.
Questionei um funcionário do hotel que me respondeu que apenas tinha conhecimento que tinha a haver com a permanência no hotel de uma alta personalidade mas mais do que isso não sabia.
Recordei-me da referência que Cris fez ao boato sobre a eventual revelação que o Professor Dr. João Campos iria fazer na Cimeira.
Sei que a palestra que ele irá dar se intitula “Energias Renováveis – Uma necessidade”.
Já há algum tempo que estou afastada do trabalho do meu ex-marido.
Lembro-me que o último trabalho de investigação dele que lhe conheci envolvia aceleradores de partículas, equipamentos nos quais ele era fascinado.
Inclusive terá participado no projecto de construção do LHC, o maior acelerador de partículas do mundo, da propriedade do CERN.
Terá ele descoberto alguma fonte de energia alternativa super-económica ou mesmo ilimitada?
Estaria ele realmente a ser ameaçado?

Após um longo e demorado duche quente, vesti um roupão de banho.
Com o cabelo ainda por secar, espalhei o meu material e apontamentos por cima da cama, procurando concentrar-me na palestra que iria dar no dia seguinte.
Tarefa praticamente impossível pois sentia-me atordoada, com a cabeça a andar à roda entre a minha preocupação com a Cris e a revisão mental dos acontecimentos do final deste dia.
Voltaria a ver Juan?
As palavras dele “- Sei tudo o que há para saber sobre ti!” ecoaram-me e fizeram-me voltar a sentir o mesmo arrepio descer-me a espinha.
Fiz um esforço para recordar o sabor dos seus beijos, o vacilar do chão e de novo estremeci.
Revi-me mentalmente no interior do táxi que nos transportou até ao hotel, e deixei que a volúpia de novo tomasse conta de mim.
Mordo ligeiramente o lábio inferior enquanto cedo a uma vontade irresistível de me tocar, de me entregar a um prazer solitário, imaginando nas minhas mãos as suas mãos ávidas de mim, percorrendo o meu corpo, explorando cada curva, cada reentrância.
Fecho os olhos, enquanto desço com as mãos, permito-me que me estimulem num movimento cadenciado.
Gemo baixinho enquanto a minha respiração acelera, imaginando o seu desejo, duro e possante desejo, que eu mesma tive nas mãos, imaginando-o dentro de mim, possuindo-me e submetendo-me à sua vontade de me fazer dele.
Levo o meu sabor nos meus dedos à boca, mordo-os, sugo-os… imagino o sabor dele misturado com o meu, encaminho-me a toda a velocidade para o êxtase…

Nisto batem à porta.
“- Mas que p…!... “.
Sobressalto-me!...
Num ápice vem-me à ideia tudo o que a Cris falou, todo o aparato policial à entrada do hotel.
Com o coração a bater mas por outras razões, exclamo em voz alta, enquanto me recomponho:
- Attendez un moment!
A medo, respiro fundo e abro a porta, apenas o suficiente para a entreabrir ligeiramente.
No corredor encontrava-se um homem de fato e gravata aprumados, possivelmente funcionário do hotel, segurando o que parecia ser um embrulho enorme, numa caixa redonda envolta em papel negro e sedoso, preso por um grande laçarote, e acompanhado por outro homem bastante alto e encorpado que aparentava ser um segurança.
- Mademoiselle Judite?
- Oui, c’est moi…
- Permita que me apresente. O meu nome é Marcel Dumont, sou o gerente deste hotel. - dirigiu-se num português correcto. – Alguém deixou este embrulho na recepção com instruções para que fosse entregue pessoalmente a si e só a si. Estava à espera de alguma encomenda?
Surpreendida, abano a cabeço.
- Não… não estava à espera de nenhuma encomenda…
De sobrolho erguido e com um semblante sério, ambos trocam um olhar carrancudo.
- Nem tem ideia de quem possa ter tido intenções de lhe oferecer um presente?
Fixo o embrulho com alguma hesitação e encolho os ombros, abanando ligeiramente a cabeça.
- Não faço a mais pequena ideia…
Observo de novo a troca de olhares.
O gerente pigarreou um pouco antes de prosseguir.
- Por questões de segurança vamos ter que revistar o conteúdo do seu embrulho. Ninguém poderá entrar ou mesmo sair do hotel sem estar devidamente identificado e autorizado. Temos ordens para revistar todas as bagagens como já deve ter sido informada, isso inclui todo o tipo de embalagens recepcionadas.
- Mas aconteceu alguma coisa? Receberam alguma ameaça? – perguntei apreensiva.
- Está tudo bem, mademoiselle. Não aconteceu nada e não tem com que se preocupar. Trata-se apenas do protocolo de segurança e protecção que seguimos quando temos a honra de hospedar uma ilustre personalidade, cujo nome como deve compreender não posso revelar. Podemos entrar?
- Naturalmente… - assenti – Façam o favor…
Abri a porta para trás, encaminhei-os para uma alcova suplementar, a qual proporcionava um espaço agradável de trabalho, concebido por uma elegante decoração em Art Déco, indicando-lhes uma pequena secretária aí instalada.
Agradecendo amavelmente, os homens entraram, e pousando o volumoso embrulho procederam à sua revista.
Sob a supervisão do gerente do hotel, e vestindo umas luvas, o segurança tratou de libertar o embrulho do laço, removendo cautelosamente a tampa para inspeccionar o seu conteúdo.
Por momentos pensei que fosse sair dali uma bomba, mas perante os sorrisinhos que verifiquei trocarem, calculei que não fosse esse o presente que me teriam remetido.
- Está tudo em ordem. Pedimos desculpa pelo incómodo. – informou-me o gerente, após o qual se apressaram em abandonar o quarto, não sem voltarem a trocar os mesmos sorrisinhos cúmplices emitidos à pouco.
Sem perceber nada, aproximei-me da caixa, espreitando com extrema curiosidade para o seu interior.
Dentro encontrava-se um vestido de noite em veludo negro e respectivos acessórios, como sapatos e malinha de mão a condizer, e uma pequena caixa também ela de veludo que aparentaria conter jóias.
Perfeitamente surpreendida, retirei-os da caixa e verifiquei que correspondiam aos meus tamanhos sem margem de erro.
Algo mais se encontrava no fundo da caixa.
Perante o meu fascínio retirei uma lindíssima… máscara de Veneza.
Fiquei a admirar a fabulosa peça de arte, dourada, toda trabalhada, com aplicações de pequenos cristais na orla e um maior no topo, também eles sob tons dourados, e ornamentada com belíssimas longas penas negras…
Ao voltar a máscara apercebi-me de um cartão que caiu do seu interior para o chão.
Baixei-me para o apanhar…




(por mulher-loba)