terça-feira, 25 de outubro de 2011

Conto de Natal por Cris

26 de Dezembro de 2008


Hoje decidi dedicar-vos um conto de Natal.
Esta história que vos escrevo foi baseada num conto inglês de Martin Bell da sua obra "The Way of the Wolf".

O COELHO

Era uma vez um lindo coelho felpudo, que vivia numa grande floresta.
Ele tinha belas orelhas curtas, um pequenino nariz preto, e uns lindos olhos invulgarmente brilhantes. O nome dele era Toni. Na verdade Toni não era um coelho lá muito bonito. O seu pêlo era castanho e malhado, e as suas orelhas pendentes não se seguravam de pé. Mas ele podia saltitar, e era, como já disse, muito, muito felpudo.


De certa forma, o Inverno é muito divertido para os coelhos. Afinal de contas, isso dá-lhes a oportunidade de saltarem na neve e de seguida, poderem olhar para trás e verem por onde saltaram. Então, de certa forma, o Inverno era divertido para Toni.

Mas, por outro lado, o Inverno entristecia Toni. O Inverno é marcado pelo momento em que todos os animais das famílias se reúnem em suas casas para celebrar o Natal aconchegante. Ele, ele poderia saltar, e estava muito peludo. Mas, tanto quanto sabia, Toni era o único coelho vivo na floresta. Na véspera de Natal, quando finalmente chegou, Toni não sentia vontade de ir para casa sozinho. Então ele decidiu que iria continuar a saltar por mais algum tempo na clareira, no centro da floresta.

Aos saltos bem altos, Toni descreveu longas trilhas na neve. Então levantou a cabeça e pode observar extasiado os maravilhosos desenhos gravados na neve com os seus saltos.

"Coelhos", pensou consigo próprio "podem dar saltos. E são muito quentes, também devido à forma como são peludos." (Toni não sabia se isto era totalmente verdade ou sequer para todos os coelhos, uma vez que ele nunca tinha conhecido outro coelho.)

Quando começou a ficar muito escuro para ver os rastos deixados, Toni decidiu-se a voltar para casa. Porém, no seu caminho, passou por um grande carvalho. Bem alto na ramagem, ouvia-se uma grande animação. Toni olhou para cima. Era uma família de esquilos! Que maravilhosa festa pareciam estar a ter.


"Olá, boa gente daí de cima!" - chamou Toni.





"Olá, boa gente daí de baixo" - responderam de volta.

"Estão a ter uma festa de Natal?" - perguntou Toni.

"Oh, sim!" - responderam os esquilos. "É véspera de Natal. Toda a gente está a ter a sua festa de Natal!"

"Posso ir à vossa festa?" - pediu Toni com gentileza.

"És um esquilo?"

"Não!"

"O que és tu, então?"

"Sou um coelho."

"Um coelho?"

"Sim."
"Bem... Como podes vir à nossa festa se não és um esquilo? Os coelhos não podem subir às árvores."

"É verdade", disse Toni pensativamente. "Mas posso dar saltos e sou muito felpudo e quentinho."

"Pedimos desculpas", disseram os esquilos. "Não sabemos nada sobre saltos nem sobre ser peludo, mas sabemos que para chegares a nossa casa, tens que ser capaz de subir às árvores."

"Oh, que pena..." disse Toni."Feliz Natal!"

"Feliz Natal", exclamaram os esquilos.

E o infeliz coelhinho saiu saltitando por aí fora em direcção à sua pequena casa. Quando tal começou a nevar e Toni chegou ao rio. Perto da ribeira foi construída uma magnífica casa de paus e lama. De dentro ouviam-se cânticos.

"São os castores!", pensou Toni. "Talvez eles me deixem ir à festa deles." E então ele resolveu bater à porta.

“Quem está aí?” exclamou uma voz.

“Toni o coelho” respondeu. Fez-se um longo silêncio, até que uma cabeça brilhante de castor surgiu à tona da água.

“Olá Toni.” disse o castor.

“Posso ir à vossa festa de Natal?” – perguntou Toni.

O castor ficou a pensar durante alguns momentos, até que respondeu. “Acho que sim. Por acaso sabes nadar?”

“Não,” respondeu Toni, “mas posso dar saltos e sou muito felpudo e quentinho.”

“É pena,”disse o castor, "não sabemos nada sobre saltos nem sobre ser peludo, mas sabemos que para chegares a nossa casa, tens que ser capaz de nadar.”

“Paciência…” murmurou Toni, já com os olhos cheios de lágrimas. “Suponho que isso é verdade… Feliz Natal!”

“Feliz Natal” respondeu o castor, desaparecendo de seguida debaixo da superfície da água.

Mesmo sendo tão peludo como ele era, Toni estava a começar a sentir frio. E a neve que caía era tão densa que os seus minúsculos olhos de coelhinho mal podiam vislumbrar o que estava à frente dele. Ele estava quase a chegar a casa, quando subitamente ouviu uns animados guinchos provenientes dos ratos do campo debaixo do chão.

"Deve ser uma festa", pensou Toni.
Limpando as lágrimas exclamou," Olá, ratos do campo. Sou Toni o coelho. Posso ir à vossa festa? " Mas como o vento soprava tão alto e o coelho tanto soluçava, ninguém o ouviu. E como não havia nenhuma resposta, Toni apenas se sentou na neve e começou a chorar com toda a sua força.

"Coelhos", pensou ele, "não são bons para ninguém. De que serve ser peludo e poder dar saltos se não tenho nenhuma família com quem estar na véspera de Natal?" Toni chorou e chorou. Quando ele parou de chorar, começou a mordiscar a sua própria pata debaixo dele, sem se conseguir mover de onde estava sentado na neve. De repente, Toni apercebeu-se de que não estava sozinho. Receoso, levantou a vista e firmou os seus olhos brilhantes, olhando em volta para tentar ver quem ali estava. Para sua surpresa, avistou um grande lobo cinzento. O lobo era enorme e extremamente forte, e seus olhos eram duas bolas flamejantes. Ele era o mais belo animal que Toni alguma vez tinha visto.
Durante algum tempo, o grande lobo cinzento não disse absolutamente nada, apenas olhando Toni em silêncio, com aqueles terríveis olhos.

Depois o lobo tomando a iniciativa, falou vagarosamente.
“Toni,” perguntou ele com uma voz suave, “porque estás tu sentado aqui na neve?”

“Porque é véspera de Natal,” respondeu Toni, “e eu não tenho família, e os coelhos não servem para nada e não são bons para ninguém…”

“Os coelhos são muito bons, sim!” disse o lobo “Coelhos podem saltitar, e são muito, muito quentinhos!”

“E de que serve isso?” choramingou Toni.

“Isso de facto é muito útil,” prosseguiu o lobo, “porque é um dom dos coelhos, uma dádiva recebida sem nada em troca. E cada ser agraciado com um dom recebe-o por alguma razão. Um dia irás descobrir porque é bom saltitar e ser muito quente e felpudo.

“Mas é Natal,” queixou-se Toni, “e eu estou completamente sozinho e não tenho qualquer família…”

“Claro que tens!” retorquiu o grande lobo cinzento, “Todos os animais da floresta são a tua família!”
E de repente o lobo desapareceu no ar. Toni apenas fechara momentaneamente os olhos, e quando os abriu de novo, o lobo simplesmente não estava lá.

"Todos os animais da floresta são a minha família", pensou Toni. "É bom ser um coelho.Os coelhos podem saltitar. É um dom." E então ele disse novamente. "Um dom. Uma dádiva recebida". Sobre a noite, Toni trabalhou. Primeiro procurou o melhor tronco que podia conseguir. (O que foi bastante difícil por causa da neve.) Então saltitando dirigiu-se a casa de castor. Ele deixou o pau à entrada da porta apenas com uma nota em que se lia: "Aqui está um bom tronco para a vossa casa. É um simples presente oferecido de boa vontade. Assinado, um membro da vossa família.”

"É uma coisa boa poder dar saltos", pensou ele, "porque a neve é muito profunda." Então Toni desatou a escavar e escavar. Em breve ele tinha juntado um monte de folhas mortas e erva suficiente para ajudar a fazer o ninho dos esquilos mais quente. Então saltitando dirigiu-se a casa dos esquilos. Ele posou a relva e as folhas sob o grande carvalho acompanhadas por esta mensagem: "Um simples presente oferecido de boa vontade. De um membro da vossa família.”

Já era tarde quando finalmente Toni se dirigiu para casa. E para piorar as coisas aproximava-se um forte nevão. Saltitando, em breve o pobre Toni estava perdido. O vento gelado soprava furiosamente. "Definitivamente está muito frio!", disse em voz alta. "É uma grande sorte ser tão felpudo e quentinho. Mas se não achar o meu caminho para casa logo, logo, até eu irei ficar congelado!"

“Iiiic, iiiic, iiiic…”

E foi então que ele o viu, uma pequena cria de rato do campo, perdida na neve. E o pequeno ratinho estava a chorar.
“Olá, pequeno rato!” chamou Toni. “Não chores mais, que eu estou aqui!” E de um salto, Toni pôs-se ao lado do pequeno ratinho.

“Estou perdido.” Choramingou o pequenino.”Nunca mais vou encontrar a minha casa, e vou morrer congelado…”

“Não morrerás gelado, “ disse Toni, “eu sou um coelho e os coelhos são muito felpudos e quentinhos! Deixa-te estar onde estás, eu te cobrirei com o meu pêlo e te aquecerei!”.

Toni deitou-se cobrindo o ratinho e abraçando-o fortemente. O pequenino rato sentiu-se rodeado por pêlo quentinho. Ainda chorou durante algum tempo, mas sentindo-se quente e aconchegado, acabou por adormecer. Toni apenas tinha dois pensamentos naquela longa e fria noite. “É bom ser um coelho. Os coelhos são muito peludos e muito quentinhos.” E então, quando ele sentiu o coração do pequeno rato bater regularmente, pensou, "Todos os animais da floresta são a minha família."

Na manhã seguinte, os ratos do campo encontraram o seu menino, dormindo na neve, confortavelmente aconchegado debaixo da carcaça peluda completamente gelada de um coelho morto. Tal era a alegria e emoção deles que nem sequer pararam para pensar de onde teria saído aquele coelho. Assim como os castores e os esquilos, que ainda se perguntam qual teria sido o membro das suas famílias que deixara aqueles presentes para eles na véspera de Natal. Após os ratos do campo se terem ido embora, o corpo gelado de Toni ficou estendido na neve. Não se ouvia nenhum som, excepto o sopro forte do vento. E ninguém em qualquer parte da floresta reparou na aproximação do grande lobo cinzento que viera deitar-se ao lado daquele corpo gelado de pêlo acastanhado e orelhas pendentes.

Mas o lobo veio e ali ficou, sem se mexer ou dizer uma palavra.

Ali ficou durante todo o dia de Natal, até que a noite caiu, e de novo voltou a desaparecer por entre a floresta.

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